("Curiosamente a Memória de Elefante é que era o título do livro Os Cus de Judas. Os Cus de Judas foram arranjados depois, na altura da obra sair. A expressão quer dizer traidores, para negros." António Lobo Antunes)
- A mim, os caminhos de ferro fazem-me sonhar -expliquei ao pagar ao conductor diante do velho portão franqueado de ananases de pedra: o homem considerou-me num imenso espanto incrédulo esquecido do dinheiro, e foi como se tivesse em Novembro a revelação do Natal.
A Travessa do Vintém das Escolas, o beco, o muro alto da casa, o pátio da fábrica de curtumes onde latia constantemente um cachorro desesperado, o céu cor-de-leite da chuva, os ramos secos da buganvília sobre o muro: cheguei, vou subir a escada a arrastrar a mala atrás de mim, abrir a porta, entrar, dissolver-me nos teus braços há tanto tempo sós, ver nascer a manhana na janela estreita do tecto, ao teu lado, assistir à chegada de anjo do padeiro, vou tocar a tua pele, as tuas pernas, o intervalo macio e tenro e côncavo das coxas, o espaço claro que separa os seios e possui o brilho nacarado de certas conchas secretas que a vazante exibe com o orgulho de um tesouro, vou entrar em ti devagar, até ao fundo, apoiado nos braços estendidos para assistir à alegria gritada do orgasmo, ao rostro a rodopiar na almofada coberto de uma elipse de madeixas, às órbitas de repente cegas, de repente opacas, que as pestanas escurecem de franjas trémulas de paramécia. É difícil falar disto assim, percebe?
Lo ha mentido el Mentiroso. 10.3.05